sábado, 30 de junho de 2007

O Medo (1) - Al Berto

13 de Dezembro de 1982
o vento bate com força nas janelas, as palmeiras agitam-se, roçam pelas paredes da casa, zunem.
folheio revistas, arrumo papéis, sinto-me terrivelmente cansado. bastaria meter-me na cama e logo cairia num sono profundo. mas não, não quero dormir. fumo, ouço os estalidos da madeira, a casa envelheceu sem que eu tenha dado por isso. e eu, terei envelhecido com ela?
acendo a lareira da sala, enrolo-me numa manta e deito-me no chão, enroscado, à beira do lume, como um cão...
... um dia começarei a redigir um diário, mas ainda é cedo, um diário requer uma entrega total, um rigor, uma disciplina, de que não sou capaz. tenho medo, medo de voltar a escrever incessantemente e rasgar tudo o que escrevo. medo, medo de ouvir aquilo que não se ouve a não ser quando escrevo, como se o corpo todo estremecesse pela última vez.
desejo o branco daquela toalha de rosto, espaço sem nódoa onde posso recomeçar a vida. nela deposito os elementos do velho rosto que ja não me pertence. do branco dimanará novo engano, a máscara, novas matérias susceptíveis de criarem a memória dum outro rosto ainda por vir.
escondo-me na noite, na sua alta vertigem. o dia vai subir à janela e dizer-me como é precária a eternidade. a luz mostra-me o espelho, único vestígio assinalando a minha presença aqui. o silêncio, a litania do silêncio portador de vozes e do entorpecedor sono. água límpida incendiando-se dentro do corpo. escapa-se uma sombra, outra, até formarem uma mancha de treva onde não consigo sequer lembrar o meu nome. sei agora que o resto de deus também é perecível.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Peter Pan nos Jardins de Kesington - James Barrie

Se algum dia perguntares à tua avó se ela ouviu falar do Pter Pan quando era mais pequena, ela irá dizer: "Claro que sim, porque perguntas isso?" E se lhe perguntares se ele montou um carneirom ela irá responder: "Mas que pergunta mais estúpida para se fazer, mas com certeza que montou." E se perguntares à tua avó se ela soube que o Peter Pan, na altura em que ela era mais nova, montou um carneiro, ela também irá dizer: "Claro que sim, meu netinho, mas porque perguntas isso?" Mas se lhe perguntares como é que ele montou o carneiro, ela irá responder que nunca soube que ele tivesse um carneiro. Talvez ela tenha esquecido, tal como às vezes se esquece do teu nome e te chama de Maria, que é o nome da tua mãe. De qualquer modo, ela jamais poderia esquecer uma coisa tão importante como um carneiro. Assim sendo, não existia nenhum carneiro no momento em que a tua avó era uma criança. Isto mostra que, ao contar a história do Peter Pan, quando se começa com o carneiro, como muita gente costuma fazer, é uma coisa tá ridícula como vestir um sobretudo antes de se ter vestido o fato.

Isto - Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu sinplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra cousa ainda.
Essa cousa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

sábado, 23 de junho de 2007

Jean Genet e o Milagre das Rosas - Al Berto

duas frestas gradeadas por onde a noite escorreu
uma mão no claro tenta alcançar a rosa branca
que outra não no escuro parece oferecer

foge-nos a cumplicidade simples deste gesto
ou do milagre que uma pétala de rosa pode desencadear
no peito nítido do condenado à morte

o tremor dos nervos alastra pelos músculos
estendido na enxerga os dedos enrolados ao sexo
consolo o desejo dum rosto no receio
que da exessiva claridade do esperma irrompa
a máscara desfeita do meu

- Que pena perpétua escondermos de nós próprios?
- O silêncio e a cegueira são caminhos únicos para a visão.
- Esse lugar de Deus onde crescem mandrágoras, do esperma bebido pela terra.

agarramo-nos à memória um do outro
o tempo é coisa que não existe mais
onde vertiginosas paixões se transmudaram em tatuagens
sons imperceptíveis através de granitos húmidos e trevas
que só a insondável noite da prisão ensinou a decifrar

vivemos na precisão milimétrica da cela
com amargo sussurro duma ausência apagando a fala
e do pensamento qualquer noção do Mundo
permanecemos imobilizados sob a densa corda de luz
que nos enforca a secreta e brancaescuridão da alma

Medo - Escravorado Casto

Do que você está falando?
Do que você tem medo?

Da verdade ou mentira?
Da morte ou da vida?
Do prazer ou da dor?
De fogo ou do frio?
Do ódio ou do amor?

Eu não tenho medo de fracassar.
Muito menos de viver.
Não tenho medo de porra nenhuma.
Mas receio te perder...
Ou viver uma vida banal!

Quero tentar sempre.
Até um dia conseguir.
Sonhar com a morte do bravo herói,
Ferido no campo de batalha.
Prefiro assim...

Tenho uma donzela para defender.
Outra guerra por travar.
Mais uma batalha a vencer.
A espada afiada do samurai

Cicatrizes dos ferimentos espalhadas por todo o corpo.
E dolorosas queimaduras.
Revelam riquezas de uma vida.
Provocadas por batalha ou amor não correspondido.
Saradas pelo carinho de muitas mulheres.

A beleza da chama aquece e ilumina.
Também atrai e queima a carne
De quem se aproxima em demasia.

Então, dane-se tudo.
Que venha o fogo dos infernos.
Com todos os demônios aterrorizantes.
Ao gelo do coração solitário...

Mas se ainda duvidas de mim.
Então vá agora!
Volte com uma tocha.
Testa-me com fogo.
Purifica minh´alma...
Traz a navalha fria.
Coloca no meu pescoço.
Que eu provo meu valor.
Derramando sangue por teu amor

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Uma citação de Kafka

A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Há-de flutuar uma cidade - Al Berto

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

terça-feira, 19 de junho de 2007

O sonho e o medo - Helena Guimarães

A alma a esvoaçar
o espaço,
dedos a definir
imaginários
contornos,
o pensamento
submerso,
o sol aquietando-me
o peito,
neste sentir sem jeito,
sem razão,
num universo de sonho
a fluir na quietude
da tarde.
Sorvo o deleite
que invento,
embriago-me
no sentimento
para esquecer
o medo,
a angústia
da dúvida
que na razão
desperta
a cada
momento.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A morte do jovem aviador (excertos) - Marguerite Duras

O princípio, o começo da história.

É a história que eu vou contar, pela primeira vez. A deste livro.

Creio que é uma direcção do escrito. É por isso, escrito dirigido, por exemplo, a ti de quem ainda não sei nada.

A ti, leitor:

(...)
Podemos ficar por aí.

Podemos ficar por aí, nesse lugar da vida de uma criança de vinte anos, o último morto da guerra.

Qualquer morte é a morte. Não importa que criança de vinte anos é uma criança de vinte anos.

Já não é exactamente a morte de qualquer um. Continua a ser a morte de uma criança.

A morte de qualquer um é a morte inteira. Qualquer um é toda a gente. E esse qualquer pode assumir a forma atroz de uma criança em curso. (...)

Quis escrever sobre a criança inglesa. E não posso escrever sobre ela. E escrevo, como vêem, apesar disso, escrevo. É porque escrevo que não sei que isto pode ser escrito. Sei que não é uma narrativa. É um facto brutal, isolado, sem qualquer eco. Os factos seriam suficientes. Contar-se-iam os factos. (...)

Não posso dizer nada.

Não posso escrever nada.

Haveria uma escrita do não escrito. Um dia será. Um dia será. Uma escrita breve, uma escrita de palavras isoladas. De palavras sem gramática de suporte. Perdidas. Ali, escritas. E imediatamente abandonadas.

(...)
Este não é um livro.

Não é uma canção.

Nem um poema. Nem pensamentos.

Mas lágrimas, dor, prantos, desesperos que ainda não é possível parar nem racionalizar. Cóleras políticas fortes como a fé em Deus. Mais fortes ainda. Mais perigosas porque sem fim.

domingo, 17 de junho de 2007

O Medo - Carlos Drumond de Andrade

Em verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nos, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.

sábado, 16 de junho de 2007

Despojo - David Mourão Ferreira

Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.

Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram
remorsos, raivas, rugas.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Esperança - Almada Negreiros

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Elogio da Sombra - Jorge Luis Borges

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Adeus - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Arte Poética II - Sophia de Mello Breyner Andresen

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo de janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estreelas, respiração da noite, perfume de tília e de óregão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria,como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria à qual esta consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige o «obstinado rigor» do poema. o verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo por onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Os Deuses Morrem - José António Gonçalves

Os deuses deveriam recusar
a si próprios o destino do sofrimento
banindo as sombras piedosas
da dor e da morte

Bastava-lhes a sorte
de distribuirem alimento para as almas
pão e água para o corpo
e talvez um braçado de rosas
para as que anseiam um dia
serem definitivamente salvas

A provisoriedade da vida é o encalhe
entre os homens e os poderes divinos
e só um lado tem o usufruto do sol
e do domínio sobre o mal e o seu negrume

É preciso que haja espíritos leves
ocupando os vácuos da atmosfera
para que se acenda o lume
da esperança de que nada falhe
elevando o homem aos patamares
que estão sempre bem guardados
e escondidos dos olhares
de quem almeja subir mais alto
e mais além do que o sonho
depositado nas asas
de qualquer quimera

Os deuses morrem e retornam
à mesa dos seus verdugos
para provarem definitivamente
a sua divindade

enquanto isso os homens choram
com as mãos impregnadas de sangue
e pedem perdão pelos pecados cometidos
na sabedoria de que amanhã tudo
será igual com toda a exactidão
nada se alterando no coração
da cidade

domingo, 10 de junho de 2007

Busque Amor novas artes, novo engenho - Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

o medo (I) - al berto

30 de julho de 1982
o crepúsculo daquele que escreve está repleto de seiva petrificada na aurora dos dias.
quando regressares, encontrar-me-ás moribundo ou metamorfoseado na minha própria escrita. ao folheares os meus livros desprender-se-á deles um cheiro amargo a plantas esmagadas, e não encontrarás mais nada a não ser a brancura envenenada do papel. as palavras apagaram-se deles ao mesmo tempo que eu me apaguei por dentro do teu silêncio.
a triste noite cai rente à janela, espalha nos vidros finíssimos sulcos de areia orvalhada. são horas de te reiventar, cobrir-te o corpo com um novo alento de vida, até que a mudez nos vista definitivamente.

Poema pouco original do medo - Alexandre O'Neill

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Epígrafe - Mário de Sá-Carneiro

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de mim. Quem sou? D’onde cheguei?...

Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada,

A cor morreu – e até o ar é uma ruína…

Vem d’Outro tempo a luz que me ilumina –

Um som opaco me dilui em Rei...

terça-feira, 5 de junho de 2007

trabalhos do olhar (12) – al berto

não

não tenho medo de morrer aqui

nem receio os cães velocíssimos de guarda

às azenhas não reveladas de teu corpo

medo da memória

sim… receio que as cabeças tristes dos galgos

aqueçam na fulguração breve dos relâmpagos

e corram repentinamente para fora do papel fotográfico

destruindo estes preciosos trabalhos do olhar

segunda-feira, 4 de junho de 2007

O Processo - Franz Kafka

K. reparou também que entre os dois homens se trocavam sinais de entendimento a seu respeito. Que espécie de gente era aquela? De que falavam? A que repartição do estado pertenciam? K. vivia num Estado que assentava no Direito. A paz reinava por todo o lado! Todas as leis estavam em vigor; quem eram, pois, os intrusos que ousavam cair-lhe em cima no seu próprio domicílio? Estava sempre disposto a encarar com a maior ligeireza possível tudo o que lhe acontecia, a só acreditar no pior quando este realmente se manifestava, e a não acautelar o futuro ainda que de todo o lado surgissem ameaças. No entanto, o que se estava agora a passar não lhe parecia correcto, embora, na verdade, pudesse ser tomado por partida de mau gosto que, por motivos desconhecidos, talvez por ele fazer 30 anos nesse dia, os colegas do banco tivessem preparado. Possivelmente bastaria que ele achasse forma de rir na cara dos guardas para que estes correspondessem ao seu riso. Quem sabe eles não eram simplesmente os moços de fretes da esquina? Realmente eram parecidos. Todavia agora estava decidido, já o estará, desde a primeira vez que Franz o olhara pela primeira vez, a não deixar escapar a mínima vantagem que, porventura, tivesse sobre aquela gente. Naquilo que mais tarde haveriam de dizer que ele se melindrara facilmente, não via K. senão um perigo diminuto. Embora não tivesse o hábito de aproveitar a experiência passada, recordava-se bem de alguns casos, em si pouco importantes, nos quais ele, em vez de proceder com consciência como os amigos, se havia portado estouvadamente sem atender às possíveis consequências que, depois, tinham constituído a punição da imprudência. Isto não devia voltar a acontecer; pelo menos desta vez. Se se tratasse duma comédia, ele queria ser comparsa.

O Medo – David Fernandes

(…) rastejou. As feições dos que jaziam ao seu lado eram silenciosas. O sangue dos covardes era igual ao dos que investiam, mas a coragem tinha o hábil efeito de saber hesitar e, para onde quer que fosse, para onde quer que olhasse no campo de batalha, a escuridão desfigurada chamava-o. Lambia-lhe as mãos trémulas e húmidas, enroscava-se como uma serpente às pernas que iam perdendo o chão. Instintivamente, apenas o coração acelerado reagia tentando atravessar aquela teia que fantasmas apodrecidos arrastavam pela caruma ensanguentada.



As nossas desculpas mas este texto não foi possível adicionar ontem...