terça-feira, 10 de julho de 2007
Comovida homenagem a Jerónimo Baía - Ruy Belo
À míngua de água numa língua de mágoa
a dívidas a dúvidas devidas
nos levam secreções secretas e sacrílegas
de dádivas de vidas divididas
Em vão devasso os meus devassos dentes
remisso os arremesso a um insosso almoço
num círculo de ouvintes dos de antes distantes
que abraço no abraço que hoje posso
Embora aos centos sejam os assuntos
indiferentes passam transeuntes
e saem sons distintos dos extintos cantos
desses antigos entes designados mastodontes
Língua de areia onde mingua a mágoa
e se divide a dúvida somente ouvida
olhar onde se agua a própria água
quem te saúda encontra enfim saída
a dívidas a dúvidas devidas
nos levam secreções secretas e sacrílegas
de dádivas de vidas divididas
Em vão devasso os meus devassos dentes
remisso os arremesso a um insosso almoço
num círculo de ouvintes dos de antes distantes
que abraço no abraço que hoje posso
Embora aos centos sejam os assuntos
indiferentes passam transeuntes
e saem sons distintos dos extintos cantos
desses antigos entes designados mastodontes
Língua de areia onde mingua a mágoa
e se divide a dúvida somente ouvida
olhar onde se agua a própria água
quem te saúda encontra enfim saída
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Rosa ao mar! - Gonçalves Dias
Por uma praia arenosa,
Vagarosa
Divagava uma Donzela;
Dá largas ao pensamento.
Brinca o vento
Nos soltos cabelos dela.
Leve ruga no semblante
Vem num instante,
Que noutro instante se alisa;
Mais veloz que a sua idéia
Não volteia,
Não gira, não foge a brisa.
No virginal devaneio
Arfa o seio,
Pranto ao riso se mistura;
Doce rir dos céus encanto,
Leve pranto,
Que amargo não é, nem dura.
Nesse lugar solitário,
— Seu fadário. —
De ver o mar se recreia;
De o ver, à tarde, dormente,
Docemente
Suspirar na branca areia.
Agora, qual sempre usava,
Divagava
Em seu pensar embebida;
Tinha no seio uma rosa
Melindrosa,
De verde musgo vestida.
Ia a virgem descuidosa,
Quando a rosa
Do seio no chão lhe cai:
Vem um'onda bonançosa,
Qu’impiedosa
A flor consigo retrai.
A meiga flor sobrenada;
De agastada,
A virge' a não quer deixar!
Bóia a flor; a virgem bela,
Vai trás ela,
Rente, rente — à beira-mar.
Vem a onda bonançosa,
Vem a rosa;
Foge a onda, a flor também.
Se a onda foge, a donzela
Vai sobre ela!
Mas foge, se a onda vem.
Muitas vezes enganada,
De enfadada
Não quer deixar de insistir;
Das vagas menos se espanta,
Nem com tanta
Presteza lhes quer fugir.
Nisto o mar que se encapela
A virgem bela
Recolhe e leva consigo;
Tão falaz em calmaria,
Como a fria
Polidez de um falso amigo.
Nas águas alguns instantes,
Flutuantes
Nadaram brancos vestidos:
Logo o mar todo bonança,
A praia cansa
Com monótonos latidos.
Um doce nome querido
Foi ouvido,
Ia a noite em mais de meia:
Toda a praia perlustraram,
Nem acharam
Mais que a flor na branca areia.
Vagarosa
Divagava uma Donzela;
Dá largas ao pensamento.
Brinca o vento
Nos soltos cabelos dela.
Leve ruga no semblante
Vem num instante,
Que noutro instante se alisa;
Mais veloz que a sua idéia
Não volteia,
Não gira, não foge a brisa.
No virginal devaneio
Arfa o seio,
Pranto ao riso se mistura;
Doce rir dos céus encanto,
Leve pranto,
Que amargo não é, nem dura.
Nesse lugar solitário,
— Seu fadário. —
De ver o mar se recreia;
De o ver, à tarde, dormente,
Docemente
Suspirar na branca areia.
Agora, qual sempre usava,
Divagava
Em seu pensar embebida;
Tinha no seio uma rosa
Melindrosa,
De verde musgo vestida.
Ia a virgem descuidosa,
Quando a rosa
Do seio no chão lhe cai:
Vem um'onda bonançosa,
Qu’impiedosa
A flor consigo retrai.
A meiga flor sobrenada;
De agastada,
A virge' a não quer deixar!
Bóia a flor; a virgem bela,
Vai trás ela,
Rente, rente — à beira-mar.
Vem a onda bonançosa,
Vem a rosa;
Foge a onda, a flor também.
Se a onda foge, a donzela
Vai sobre ela!
Mas foge, se a onda vem.
Muitas vezes enganada,
De enfadada
Não quer deixar de insistir;
Das vagas menos se espanta,
Nem com tanta
Presteza lhes quer fugir.
Nisto o mar que se encapela
A virgem bela
Recolhe e leva consigo;
Tão falaz em calmaria,
Como a fria
Polidez de um falso amigo.
Nas águas alguns instantes,
Flutuantes
Nadaram brancos vestidos:
Logo o mar todo bonança,
A praia cansa
Com monótonos latidos.
Um doce nome querido
Foi ouvido,
Ia a noite em mais de meia:
Toda a praia perlustraram,
Nem acharam
Mais que a flor na branca areia.
domingo, 8 de julho de 2007
Mulhermar - Nilze Costa e Silva
Amanheço, acordo
Desperto em Lagoinha
Durmo, alvoreço
Me enlevo, transpareço
Abro os olhos e sonho
Menina e mulher, mulhermar
Ando sobre dunas quentes
Que me queimam os pés
Choro ondas
Retorno à infância
Iracema menina
Lagoinha mulher
Os quatro cantos de minhas paredes
São rodeadas de mar
Meus cabelos são algas marinhas
Quando durmo e me banho de luar
Lagoinha me toma e me abraça
Me invade e me alaga
Me torna lua
Solitária e nua.
Desperto em Lagoinha
Durmo, alvoreço
Me enlevo, transpareço
Abro os olhos e sonho
Menina e mulher, mulhermar
Ando sobre dunas quentes
Que me queimam os pés
Choro ondas
Retorno à infância
Iracema menina
Lagoinha mulher
Os quatro cantos de minhas paredes
São rodeadas de mar
Meus cabelos são algas marinhas
Quando durmo e me banho de luar
Lagoinha me toma e me abraça
Me invade e me alaga
Me torna lua
Solitária e nua.
sábado, 7 de julho de 2007
O mundo é grande - Carlos Drummond de Andrade
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Mar sonoro - Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
teias:
beleza,
mar,
mar sonoro,
milagre,
sonho,
sophia de mello breyner andresen
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Encontro de amigos - Urariano Mota (Excerto)
A ironia não é percebida, porque o cultivador de “saúde é tudo, em primeiro e perimeiríssimo lugar saúde”, passa a enunciar uma receita:
- Olhe, pela manhã, um copo de suco de laranja, uma folha de couve, uma fatia de pão de centeio. Seis ovos de codorna, uma xícara de chá preto. E limão. Pode usar e abusar do limão, se quiser. Limão é muito bom para as artérias, até pra potência.
- Limão? - Todos se interessam na mesa . - Limão?
- Sim, limão.
- Via oral, você quer dizer.
- Sim, e água, muita água. A receita da felicidade é a água.
- Água água?
- Sim, água, água. Bebam 8 copos de água por dia. Mas o ideal são dois litros de água. Limpa a pele, desintoxica, emagrece, lubrifica e dá tesão.
- Água mesmo, sem aditivo?
- Olhe, pela manhã, um copo de suco de laranja, uma folha de couve, uma fatia de pão de centeio. Seis ovos de codorna, uma xícara de chá preto. E limão. Pode usar e abusar do limão, se quiser. Limão é muito bom para as artérias, até pra potência.
- Limão? - Todos se interessam na mesa . - Limão?
- Sim, limão.
- Via oral, você quer dizer.
- Sim, e água, muita água. A receita da felicidade é a água.
- Água água?
- Sim, água, água. Bebam 8 copos de água por dia. Mas o ideal são dois litros de água. Limpa a pele, desintoxica, emagrece, lubrifica e dá tesão.
- Água mesmo, sem aditivo?
teias:
água,
encontro de amigos,
felicidade,
limão,
receita,
saúde,
urariano mota
quarta-feira, 4 de julho de 2007
No princípio era o sol - Mel de Carvalho
No princípio era o Sol, o primado do Sol
da resplandecência. A essência
da luminosidade pré-incrita
em desassossegos acordados
de um bando de aves, elevados
num canto divino em cantos ermos e repartidos
e logo povoados na veia dos verbos e dos sentidos.
No princípio era o abraço a explodir virginal
da madre terra em destemperos de gestos primitivos,
em mãos revoltas, de asas soltas,
sem corpos, de um amor abstracto,
sem palco, de feição feérica, de tão ardente.
E logo, logo o medo, e das neves o branco,
e o espanto
e o pranto desordenado
do ar fluido aprisionado em redes irresolutas,
em redes densas.
Depois as crenças, as lutas, a desordem
da veste e do posto, na perda acesa, na insolência
maior de um querer e não querer, no amortalhar
das palavras sem sangue,
sem massa, sem carne, a dissiparem-se
na insolvência de luas e trigos virulentos,
em cores plúmbeas de Sol,
já pétreas, pretéritas e tão presentes.
No princípio era o Sol e as palavras,
e o sonho e a utopia. E todas juntas, em agitações rítmicas
de corpos celestes, de astros alongados, estiolados em cio
na grama, no chão e na chama. Fixados de tão agrestes.
No princípio era o Sol, desenhado redondo de tão exacto
e no final o risco impreciso do precipício do gesto.
da resplandecência. A essência
da luminosidade pré-incrita
em desassossegos acordados
de um bando de aves, elevados
num canto divino em cantos ermos e repartidos
e logo povoados na veia dos verbos e dos sentidos.
No princípio era o abraço a explodir virginal
da madre terra em destemperos de gestos primitivos,
em mãos revoltas, de asas soltas,
sem corpos, de um amor abstracto,
sem palco, de feição feérica, de tão ardente.
E logo, logo o medo, e das neves o branco,
e o espanto
e o pranto desordenado
do ar fluido aprisionado em redes irresolutas,
em redes densas.
Depois as crenças, as lutas, a desordem
da veste e do posto, na perda acesa, na insolência
maior de um querer e não querer, no amortalhar
das palavras sem sangue,
sem massa, sem carne, a dissiparem-se
na insolvência de luas e trigos virulentos,
em cores plúmbeas de Sol,
já pétreas, pretéritas e tão presentes.
No princípio era o Sol e as palavras,
e o sonho e a utopia. E todas juntas, em agitações rítmicas
de corpos celestes, de astros alongados, estiolados em cio
na grama, no chão e na chama. Fixados de tão agrestes.
No princípio era o Sol, desenhado redondo de tão exacto
e no final o risco impreciso do precipício do gesto.
teias:
caos,
gesto,
lutas,
luz,
mel de carvalho,
no princípio era o sol,
sol,
sonho,
vida
terça-feira, 3 de julho de 2007
Frutos - Eugénio de Andrade
Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
teias:
aroma,
cores,
eugénio de andrade,
frutos sensações,
sabor,
tangerina
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Summertime - Ella Fitzgerald & Louis Armstrong
Summertime and the livin' is easy
Fish are jumpin' and the cotton is high
Oh your daddy's rich and your ma is good lookin'
So hush little baby, don't you cry
One of these mornings
You're goin' to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take the sky
But till that morning
There's a nothin' can harm you
With daddy and mammy standin' by
teias:
alegria,
blues,
chorar,
ella fitzgerald,
liberdade,
louis armstrong,
summertime,
verão
domingo, 1 de julho de 2007
É verão - João Baião
É verão
é emoção
é o Big Show Sic no coração
Contribuição da Guida, uma grande amiga nossa, que propos meio a brincar mas que cá está.
é emoção
é o Big Show Sic no coração
Contribuição da Guida, uma grande amiga nossa, que propos meio a brincar mas que cá está.
Subscrever:
Mensagens (Atom)