segunda-feira, 4 de junho de 2007
O Processo - Franz Kafka
K. reparou também que entre os dois homens se trocavam sinais de entendimento a seu respeito. Que espécie de gente era aquela? De que falavam? A que repartição do estado pertenciam? K. vivia num Estado que assentava no Direito. A paz reinava por todo o lado! Todas as leis estavam em vigor; quem eram, pois, os intrusos que ousavam cair-lhe em cima no seu próprio domicílio? Estava sempre disposto a encarar com a maior ligeireza possível tudo o que lhe acontecia, a só acreditar no pior quando este realmente se manifestava, e a não acautelar o futuro ainda que de todo o lado surgissem ameaças. No entanto, o que se estava agora a passar não lhe parecia correcto, embora, na verdade, pudesse ser tomado por partida de mau gosto que, por motivos desconhecidos, talvez por ele fazer 30 anos nesse dia, os colegas do banco tivessem preparado. Possivelmente bastaria que ele achasse forma de rir na cara dos guardas para que estes correspondessem ao seu riso. Quem sabe eles não eram simplesmente os moços de fretes da esquina? Realmente eram parecidos. Todavia agora estava decidido, já o estará, desde a primeira vez que Franz o olhara pela primeira vez, a não deixar escapar a mínima vantagem que, porventura, tivesse sobre aquela gente. Naquilo que mais tarde haveriam de dizer que ele se melindrara facilmente, não via K. senão um perigo diminuto. Embora não tivesse o hábito de aproveitar a experiência passada, recordava-se bem de alguns casos, em si pouco importantes, nos quais ele, em vez de proceder com consciência como os amigos, se havia portado estouvadamente sem atender às possíveis consequências que, depois, tinham constituído a punição da imprudência. Isto não devia voltar a acontecer; pelo menos desta vez. Se se tratasse duma comédia, ele queria ser comparsa.
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