13 de Dezembro de 1982
o vento bate com força nas janelas, as palmeiras agitam-se, roçam pelas paredes da casa, zunem.
folheio revistas, arrumo papéis, sinto-me terrivelmente cansado. bastaria meter-me na cama e logo cairia num sono profundo. mas não, não quero dormir. fumo, ouço os estalidos da madeira, a casa envelheceu sem que eu tenha dado por isso. e eu, terei envelhecido com ela?
acendo a lareira da sala, enrolo-me numa manta e deito-me no chão, enroscado, à beira do lume, como um cão...
... um dia começarei a redigir um diário, mas ainda é cedo, um diário requer uma entrega total, um rigor, uma disciplina, de que não sou capaz. tenho medo, medo de voltar a escrever incessantemente e rasgar tudo o que escrevo. medo, medo de ouvir aquilo que não se ouve a não ser quando escrevo, como se o corpo todo estremecesse pela última vez.
desejo o branco daquela toalha de rosto, espaço sem nódoa onde posso recomeçar a vida. nela deposito os elementos do velho rosto que ja não me pertence. do branco dimanará novo engano, a máscara, novas matérias susceptíveis de criarem a memória dum outro rosto ainda por vir.
escondo-me na noite, na sua alta vertigem. o dia vai subir à janela e dizer-me como é precária a eternidade. a luz mostra-me o espelho, único vestígio assinalando a minha presença aqui. o silêncio, a litania do silêncio portador de vozes e do entorpecedor sono. água límpida incendiando-se dentro do corpo. escapa-se uma sombra, outra, até formarem uma mancha de treva onde não consigo sequer lembrar o meu nome. sei agora que o resto de deus também é perecível.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário