sábado, 23 de junho de 2007

Jean Genet e o Milagre das Rosas - Al Berto

duas frestas gradeadas por onde a noite escorreu
uma mão no claro tenta alcançar a rosa branca
que outra não no escuro parece oferecer

foge-nos a cumplicidade simples deste gesto
ou do milagre que uma pétala de rosa pode desencadear
no peito nítido do condenado à morte

o tremor dos nervos alastra pelos músculos
estendido na enxerga os dedos enrolados ao sexo
consolo o desejo dum rosto no receio
que da exessiva claridade do esperma irrompa
a máscara desfeita do meu

- Que pena perpétua escondermos de nós próprios?
- O silêncio e a cegueira são caminhos únicos para a visão.
- Esse lugar de Deus onde crescem mandrágoras, do esperma bebido pela terra.

agarramo-nos à memória um do outro
o tempo é coisa que não existe mais
onde vertiginosas paixões se transmudaram em tatuagens
sons imperceptíveis através de granitos húmidos e trevas
que só a insondável noite da prisão ensinou a decifrar

vivemos na precisão milimétrica da cela
com amargo sussurro duma ausência apagando a fala
e do pensamento qualquer noção do Mundo
permanecemos imobilizados sob a densa corda de luz
que nos enforca a secreta e brancaescuridão da alma

Sem comentários: