segunda-feira, 18 de junho de 2007

A morte do jovem aviador (excertos) - Marguerite Duras

O princípio, o começo da história.

É a história que eu vou contar, pela primeira vez. A deste livro.

Creio que é uma direcção do escrito. É por isso, escrito dirigido, por exemplo, a ti de quem ainda não sei nada.

A ti, leitor:

(...)
Podemos ficar por aí.

Podemos ficar por aí, nesse lugar da vida de uma criança de vinte anos, o último morto da guerra.

Qualquer morte é a morte. Não importa que criança de vinte anos é uma criança de vinte anos.

Já não é exactamente a morte de qualquer um. Continua a ser a morte de uma criança.

A morte de qualquer um é a morte inteira. Qualquer um é toda a gente. E esse qualquer pode assumir a forma atroz de uma criança em curso. (...)

Quis escrever sobre a criança inglesa. E não posso escrever sobre ela. E escrevo, como vêem, apesar disso, escrevo. É porque escrevo que não sei que isto pode ser escrito. Sei que não é uma narrativa. É um facto brutal, isolado, sem qualquer eco. Os factos seriam suficientes. Contar-se-iam os factos. (...)

Não posso dizer nada.

Não posso escrever nada.

Haveria uma escrita do não escrito. Um dia será. Um dia será. Uma escrita breve, uma escrita de palavras isoladas. De palavras sem gramática de suporte. Perdidas. Ali, escritas. E imediatamente abandonadas.

(...)
Este não é um livro.

Não é uma canção.

Nem um poema. Nem pensamentos.

Mas lágrimas, dor, prantos, desesperos que ainda não é possível parar nem racionalizar. Cóleras políticas fortes como a fé em Deus. Mais fortes ainda. Mais perigosas porque sem fim.

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