Os deuses deveriam recusar
a si próprios o destino do sofrimento
banindo as sombras piedosas
da dor e da morte
Bastava-lhes a sorte
de distribuirem alimento para as almas
pão e água para o corpo
e talvez um braçado de rosas
para as que anseiam um dia
serem definitivamente salvas
A provisoriedade da vida é o encalhe
entre os homens e os poderes divinos
e só um lado tem o usufruto do sol
e do domínio sobre o mal e o seu negrume
É preciso que haja espíritos leves
ocupando os vácuos da atmosfera
para que se acenda o lume
da esperança de que nada falhe
elevando o homem aos patamares
que estão sempre bem guardados
e escondidos dos olhares
de quem almeja subir mais alto
e mais além do que o sonho
depositado nas asas
de qualquer quimera
Os deuses morrem e retornam
à mesa dos seus verdugos
para provarem definitivamente
a sua divindade
enquanto isso os homens choram
com as mãos impregnadas de sangue
e pedem perdão pelos pecados cometidos
na sabedoria de que amanhã tudo
será igual com toda a exactidão
nada se alterando no coração
da cidade
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