sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dança Das Mães

Na beleza incurável das feridas
Alimentam-se mães sem trégua.
Nos rios secos, batem e batem os corações
alimentados em sangue frio e espesso.
Que é lívido. Que procura as raízes.
O coração é um bicho estranho, que vai caminhando
gota a gota. E as feridas imprudentes
aproximam-se das mães, imprudentes ao peso
de cada sopro. O amor eternamente feroz.
E as feridas das mães, são cada vez mais belas.
O medo caminha violentamente mais perto,
No corpo na cara, nas vértebras e no ventre
Onde se abriga com seu volúvel volume.
O silencioso amor de mãe.
Sob a folhagem da água , mães cansadas
da aridez que as toca, incendeiam-se através
dos filhos. E os filhos, esse chumbo cravado
nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende,
Alimenta as feridas pelos tendões.
As mães debicam sobre a areia a sua rota clara,
até ao fim do mundo . Como pela última vez,
sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza
incurável das feridas, enquanto mães tacteiam
A pedra, até ser flor.
Por vezes sangram e cantam, secam os olhos,
arrancam os sexos e em permanente luta, corpo a
corpo, o amor estende-se mas os gestos
são frios , neste caminhar obsceno
de pessoas sem frutos. Há-de caber numa gota,
todo o tempo, De uma vida sem história


João Rasteiro

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